Crônicas fora de hora – III: “Um Natal de novos significados”
A memória nos trai, ou no mínimo reconstrói os fatos sob o olhar daquilo que nos marcou, ou do que passamos a ser ao longo do tempo, ou do que somos hoje. Confesso que não tenho lembranças claras de muitos Natais, mas sem dúvida um dos que melhor guardo na memória aconteceu no início dos anos 80, eu ainda uma tenra criança. Era comum, àquela época, após cruzarmos a meia-noite em casa de parentes, regressarmos ao lar ansiosos – eu e meus irmãos, embora não me recorde se Leandro, o mais novo, já era nascido – para abrirmos os presentes deixados por Papai Noel junto à nossa árvore de Natal.
Naquele ano, eu pedira ao bom velhinho brinquedos um tanto semelhantes aos atuais ‘transformers’, claro, com as limitações da época – enfim, algo do tipo caminhão que vira helicóptero, avião que vira barco; se não me engano dois. Chegando em casa, pacotes abertos, entre eles não estavam os presentes desejados. O que ganhei foi uma coleção de bichinhos de plástico na cor laranja, representando animais típicos africanos. Pouco depois, toca a campainha e Papai Noel, em pessoa, chega e me traz os brinquedos que lhe encomendara. Que eu me lembre, fiquei praticamente paralisado, quase sem emitir palavra. Não sei se então já desconfiava da não veracidade do senhor de barbas brancas, mas o achei conhecido. Tempos depois (não sei exatamente quando), soube que era meu querido tio Brenno, sempre bastante brincalhão, sem dúvida muito apropriado para o papel.
O quanto brinquei com os ‘transformers’? Que me recorde, muito pouco. Mas os bichinhos laranja foram meus companheiros por anos e anos. Com eles conheci o antílope e o dromedário – não fazia ideia de que existiam camelos com uma única corcova – e me afeiçoei ainda mais à zebra, ao leão, ao hipopótamo e a tantos outros que, mais tarde, me fizeram também gostar do tamanduá-bandeira, do mico-leão-dourado, do lobo-guará dos biomas brasileiros, bem como do coala australiano, da lhama andina e do cachalote transoceânico, por exemplo. E mais importante: desde então passei a desenvolver com mais força não somente o amor aos animais, mas sobretudo o amor à vida. Naquele presente-surpresa, encontrei um novo significado para minha trajetória enquanto ser humano consciente, a se agregar a outros tantos que vieram ao longo do caminho que me traz hoje, aqui, até a escrita desta crônica.
Os presentes já não me têm o mesmo valor – claro, é sempre bom ganhá-los. Prefiro ter boa comida à mesa da ceia (ainda que simples, pois nem todo ano permite sofisticação), mas acima de tudo valorizo estar com quem amo e passar uma noite de paz, harmonia, fé, esperança e tudo o mais que o Natal possa representar. Até porque se trata da celebração do nascimento de Jesus, e ele, mais do que ninguém, representa tudo isso. Alguém que nos recomendou amar a todos, até mesmo aos inimigos, reconciliar-nos com nossos adversários (que podem ser, dependendo do momento, até pessoas a quem amamos, caso tenhamos tido quaisquer desavenças com elas), perdoar sem limites, promover a paz sem deixar de buscar a justiça, ser caridosos com os mais necessitados (de pão ou de afeto), colocar o que é do espírito acima do que é material, entre outros vários preceitos que compõem um autêntico e precioso roteiro espiritual – eis alguém, enfim, que merece toda nossa consideração e gratidão.
A mensagem de Jesus não é restrita ao que podemos chamar de mundo cristão, nem tampouco ao campo da religião; ela é universal, transcende rótulos, tem um alcance infinito, é merecedora de reflexões e estudos, sem vieses particulares, mesmo em instituições laicas, como universidades. Tanto que o notável Albert Einstein, cientista e judeu, se dizia fascinado por sua figura e seus ensinos; e um dos luminares de uma religião não cristã, o hinduísmo, Paramahansa Yogananda, autor de uma das mais fantásticas obras que pude apreciar, a “Autobiografia de um iogue”, reconhecia Jesus como “o Cristo”, ou “uma pessoa tão perfeita quanto se pode ser” – e até escreveu livros sobre ele, tamanha sua admiração pelo Mestre de Nazaré.
Este Natal de 2020 será, acredito, o mais diferente de todos para muitos de nós. A mesa poderá não estar tão farta como antes, e o que mais nos entristece: não terá, provavelmente, o mesmo número de pessoas à sua volta, algumas delas, para não poucas famílias, ausentes para sempre nesta passagem pelo planeta. Mas o que mais importa é a presença de seu aniversariante e o que ele significa dentro de nossos corações, nascendo e permanecendo em nós, de preferência todos os dias, não apenas numa única noite. E que seja um Natal de novos significados, como aquele em que os singelos bichinhos conquistaram meu coração, convidando-nos a ter cada vez mais amor, mais luz, mais paz, mais paciência, mais perdão, mais compreensão, mais solidariedade, mais fraternidade – entre tantos outros bons valores e sentimentos que possamos acrescentar a essa lista com a qual Papai Noel nenhum poderá nos presentear, mas tão somente nós mesmos. Um Natal iluminado a todos!
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