Crônicas fora de hora – IV: “Um novo ano de boas surpresas”



Quanto do que planejamos ou almejamos para 2020 se realizou? Talvez muito pouco, até porque não contávamos com a grande surpresa do ano: a pandemia. Ainda assim, se fizermos um esforço para nos lembrarmos dos anos anteriores, é bem possível que, mesmo sem algo tão impactante a nos modificar a rotina, percebamos que igualmente não tivemos todos os nossos desejos e objetivos satisfeitos.

De uns tempos para cá, por recomendação de uma amiga, mais esotérica do que eu, todo final de ano tenho escrito uma carta, para mim mesmo, a ser aberta doze meses depois, com uma espécie de lista de desejos, porém escrevendo, em agradecimento a Deus, como se tudo já tivesse sido realizado. Na primeira, que eu me lembre, inseri muitas metas específicas, do tipo ‘aprender a montar aplicativos’ ou ‘voltar a estudar italiano’ – resultado: muita coisa deixei de concretizar. No ano seguinte, priorizei objetivos mais genéricos e/ou de manutenção do que já vinha ocorrendo, como ‘estar com a saúde em dia’ – o índice de sucesso foi maior.

A intenção, claro, não é fazer a carta buscando um percentual de propósitos a alcançar em até 365 ou 366 dias, mas sim o de se ver tendo os sonhos realizados e entrar no ano vindouro com mais positividade. De qualquer modo, não sei se redigirei essa carta este ano (aliás, tenho poucas horas para decidir). Nem sei de que maneira expressarei minhas metas para 2021, caso a redija. Em uma coisa, contudo, já estou bem escolado: na grande maioria das vezes, não acontece o que pedimos ou queremos, mas sim o que a vida pede ou quer de nós; não o que desejamos, mas sim aquilo de que precisamos.

Creia-se ou não em Deus, sendo ou não cristão, há uma grande verdade implícita na oração do “Pai Nosso”, quando se diz “Seja feita a vossa vontade” (e há quem acrescente: ‘e não a nossa’) – a de que é necessário ajustar-se ou, mais do que isso, tanto quanto possível estar em sintonia com o que a vida nos apresenta. O que não significa passividade, conformismo, mas, como se costuma dizer popularmente, dançar conforme a música, ao menos enquanto não for possível trocar o disco.

O segredo – ou um deles – talvez seja, como nos propõe o espiritualista alemão Eckhart Tolle, autor do best-seller “O poder do agora”, tirarmos o foco do tempo (do passado que ainda nos oprime e do futuro pelo qual tanto ansiamos) e nos concentrarmos no momento presente, no agora. Ou ao menos lidar com o tempo de modo mais suave, sem tanta carga ou cobranças sobre ele, tendo-o como um aliado, deixando-o fluir enquanto buscamos fazer o que nos seja factível, sem omissões nem excessos.

Não pense você, cara leitora, caro leitor, que eu seja contra planejar, almejar, desejar, traçar metas; muito pelo contrário, vejo tudo isso como essencial. Mas não podemos nos apegar ao que queremos, como algo do qual dependa nossa sobrevivência, pois às vezes é preciso mudar, retraçar planos. É sempre bom alimentar esperanças, mas não nutrir expectativas, que com o tempo passam a nos corroer por dentro, de tanto que nos obstinamos em realizá-las. O segredo – mais um – é dar a cada coisa sua medida certa, uma medida que não acabe por ser maior que nós, por nos sufocar.

E, ainda que vida nos peça mais do que nos ouça, vale lembrar que o mesmo autor do “Pai Nosso”, ninguém menos que Jesus, nos recomendou pedir, em oração, como se já tivéssemos recebido, sentindo o pedido atendido (quem não souber ou quiser orar, pode mentalizar, meditar, focar, imaginar). Até por isso, na mais famosa das preces, além de reconhecer a vontade soberana de Deus (ou da vida), ele conclama a que ela seja feita “na Terra como no Céu” e que esse “Céu”, que também chama de “Reino”, venha a nós – e não nós a ele. Ou seja: podemos tornar nossas vidas (as de cada um) um ‘reino celestial’, aqui e agora, em sintonia com o que a vida (ou Vida, com “v” maiúsculo, a que nos rege) quer de nós, ao sermos adaptáveis e resilientes, mas fazendo a nossa parte, “na Terra”.

A vida é feita de surpresas. E quantas delas podemos contar em nossas trajetórias, não apenas no marcante ano de 2020! Algumas atrasando, modificando ou até destruindo nossos planos; outras, sem dúvida, acelerando-os ou permitindo-nos concretizá-los. Que 2021 seja um ano muito bom e de sonhos realizados. Mas, como é bem possível que nem todos esses sonhos venham a ganhar corpo, desejo que seja um ano, acima de tudo, de boas surpresas. Se vierem, porém, surpresas ruins, que não tenham tanto impacto; e, se tiverem, que consigamos absorver esse impacto com o máximo de leveza e saibamos lidar com as novidades inicialmente nem tão boas da melhor maneira, com muita serenidade, lucidez, discernimento e sabedoria.

Até o ano que vem, com tudo de bom do início ao fim de 2021, e muita saúde principalmente!

PS – Com esta crônica já iniciada, e suas ideias centrais já esboçadas, fui abrir a carta que escrevi um ano atrás. De fato, muito do que pedi não foi, digamos, atendido pela vida. Mas qual não foi minha [ops] surpresa ao ler a última frase! Nela constava: “e gratidão pelas boas surpresas de 2020”. Houve sim, e não foram poucas!

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