Crônicas fora de hora – V: “Lágrimas do Rio Negro”
Estive em Manaus em 2013, a pedido do
amigo Osmir Nunes, para representar a Associação Brasileira de Divulgação
Científica (Abradic) na comissão julgadora de um prêmio estadual na área. Por
razões profissionais e pelo pouco tempo disponível, conheci pouco da cidade,
mas foi o suficiente para qualificá-la como impressionante: por estar encravada
numa imensa floresta, por sua forte ligação e dependência em relação a um rio
monumental, assim como por sua marcante pobreza, em meio a recursos de aparentemente
infinita riqueza natural e cultural.
A imagem do Rio Negro, enorme, imponente, está até hoje gravada em minha retina, em minha memória, com muita nitidez e muito sentimento – ver aquele ‘marzão’ (assim me referi a ele à época, como uma criança ou adulto do interior que visse o mar pela primeira vez) foi uma das maiores emoções de minha vida. Águas escuras, águas de vida, águas que hoje são também lágrimas... Ó mar amargo, quanto do seu caudal são lágrimas de Manaus! Lágrimas que na verdade são de todo um país, que chora, que lamenta, mas que precisa acordar, precisa refletir e precisa, mais do que nunca, responder com urgência à pergunta: por que chegamos a este ponto? E, tão logo lhe responda, ou mesmo antes disso, precisa buscar soluções, precisa agir.
Há alguns meses busquei dar minha contribuição ao redigir um abaixo-assinado propondo medidas para evitarmos repetir, caso venham novas pandemias, o desastre que temos visto atualmente, a partir da disseminação da covid-19 (o link para o documento se encontra ao final da crônica). Mas ações isoladas não bastam para não chorarmos ainda mais futuramente, seja por Manaus, seja por qualquer outra cidade ou recanto brasileiro, ou pelo país inteiro. É uma missão coletiva. Cabe a todos nós apontar razões e caminhos, contudo algo ressoa evidente: há, em semelhante medida, causas longínquas e causas recentes.
Manaus – que, talvez mais do que São Paulo ou Rio de Janeiro, é um retrato fiel (ou muito próximo disso) do Brasil, haja vista seus flagrantes contrastes – por um lado sofre as consequências do pouco caso ou descaso de uma série talvez infindável de governos (nos níveis federal, estadual e municipal) com a mais fundamental das áreas: a saúde. Mas não podemos negar o inegável, ainda que negar tenha se tornado o esporte favorito de muitos: o atual governo federal tem incomensurável parcela de responsabilidade pelo que vem acontecendo – emblematicamente em Manaus, porém efetivamente em todo o Brasil.
Negou-se por muito tempo a reconhecer a gravidade da pandemia (quando não sua própria existência), negou-se a coordenar um plano nacional de combate à doença (ao mesmo tempo em que culpava governos estaduais e municipais pelos problemas, sem reconhecer os seus), negou-se a visitar hospitais (preferindo comparecer a eventos militares de muito menor importância), negou-se a ouvir a ciência (que comete seus erros, mas é autoridade no assunto, algo que o governo, por si só, não é), negou-se a colocar profissionais da área no ministério – ou seria ‘sinistério’? – responsável por cuidar de nossa saúde, bem como nos demais (não era promessa de campanha colocar os melhores encabeçando cada pasta?). De fato, um governo negacionista, capaz de negar até o óbvio. E mais: quando se propôs a fazer algo, foi na contramão do bom senso, como ao colocar em dúvida o uso de máscaras, incentivar aglomerações e recomendar medicamentos sem eficácia comprovada para deter a enfermidade.
Tive a desonra de, (apenas) no segundo turno das eleições de 2018, ter optado por Jair Bolsonaro, simplesmente porque me decepcionara e indignara com o partido que lhe era então adversário, protagonista de casos graves de corrupção anos antes (votei com gosto amargo, pois me opunha a diversos de seus pontos de vista e posturas, mas consciente e esperançoso de que, investido do cargo presidencial, ele agiria com o mínimo de responsabilidade e ponderação, algo que, hoje, reconheço ser impensável). A corrupção conceitual e moral do presente governo, que tem como resultado a morte de mais de duzentas mil vidas (quando poderíamos estar com menos de cem mil se houvesse simplesmente vontade de fazer o melhor, ainda que sujeita a erros), é muito pior que os bilhões desviados da Petrobrás.
Não há ideologia ou contraideologia que justifique tamanhos absurdos; não é questão de ser de direita ou de esquerda, até porque há bons representantes em ambos os espectros – o que difere fundamentalmente é a visão de como proceder. Estamos falando de vidas humanas! Basta, passou dos limites! Não deixemos que as lágrimas do Rio Negro se tornem um oceano de desgraças! Se não há a mínima chance de o comandante mudar o rumo e conduzir a embarcação a porto seguro, que se mude o comandante, o mais rapidamente possível.
PS 1 – Abaixo-assinado “Por mais hospitais e leitos, entre outras medidas para superar possíveis novas pandemias”: https://www.change.org/p/por-mais-hospitais-e-leitos-entre-outras-medidas-para-superar-possíveis-novas-pandemias
PS 2 – Foto copiada desta página, com conversão nossa para p&b: https://amazonasatual.com.br/em-manaus-60-dos-eleitores-nao-tem-candidato-a-prefeito-mostra-pesquisa/

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