A busca

“Busco alguém que me complete”. “Busco realização no trabalho”. “Busco refúgio no lar”. E por aí vai... Enfim, estamos sempre buscando. Mas fica uma pergunta no ar: quanto dessas buscas se concretiza e, mais do que isso, se pereniza, ou seja, se mantém estável, sem abalos, ao longo do tempo?

Se encontrarmos alguém que nos complete, a primeira grande decepção (ou quiçá mesmo pequena) da qual ele ou ela for protagonista nos fará novamente nos sentirmos incompletos. Se houver qualquer significativo entrave ou desavença no campo do trabalho, a realização que até então sentíamos correrá forte risco de soçobrar. E, se o lar já não for o mesmo de outrora, com a harmonia de tempos tidos como felizes, não teremos mais onde nos refugiar.

O que nos cabe então buscar? Independentemente de você, caro leitor, cara leitora, ter religião ou não – e, em tendo, não importa qual seja –, lanço mão de uma frase de Jesus, relatada por Lucas, no capítulo 17, versículo 21, do Evangelho de sua autoria, quando perguntam ao Mestre em que momento chegaria o Reino de Deus: “Não se poderá dizer: ‘Ei-lo aqui! Ei-lo ali!’, pois eis que o Reino de Deus está no meio de vós”. Se você que lê este texto não crê em Deus ou num reino que lhe pertença, sem problema; basta substituir a expressão “Reino de Deus” por tudo o que ela efetivamente representa para os que acreditam: paz, amor, harmonia, serenidade, felicidade... e tudo o mais que queremos de bom para nós mesmos e para os que nos cercam. E tudo está no meio de nós; em outras palavras, está dentro de nós, não vem de fora.

A busca essencial, portanto, deve ser feita internamente. E mais, ainda conforme Jesus, desta vez pela escrita de Mateus, capítulo 6, versículo 33, do Evangelho escrito por esse apóstolo: “Buscai, em primeiro lugar, seu Reino [de Deus] e sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas” – e, ao dizer “essas coisas”, o Nazareno se referia aos bens terrenos, materiais, palpáveis, ao passo que “justiça”, de certa forma, nos remete a equilíbrio, bom senso, discernimento, lucidez. Traduzindo: se bem semearmos e cultivarmos o que está dentro de nós, de maneira justa, equilibrada, virá uma chuva de bênçãos a nos oferecer flores e frutos.

Ao buscarmos o melhor em nós mesmos, e melhorar o que ainda não temos de tão bom, desenvolvendo o autoamor nos níveis mais altos que pudermos alcançar (e, parafraseando o Cristo, convém amar aos outros na mesma proporção que a nós mesmos, o que não se confunde com egoísmo), não teremos alguém que nos complete, mas sim, na medida em que nos sentirmos completos, encontraremos – e sem que precisemos buscar, pois a vida nos mostrará, às vezes claramente aos nossos olhos – alguém que nos faça transcender, ir além do que precisamos, desejamos, imaginamos ou somos; não teremos um trabalho que nos realize, mas, realizados conosco mesmos, realizaremos qualquer trabalho não apenas para nós, mas igualmente para os outros, para o mundo, fazendo brilhar a nossa luz; não teremos no lar um refúgio, mas, sendo nós próprios o nosso refúgio, teremos em qualquer lugar que estejamos o nosso lar, e faremos daquele local em que habitamos apenas o altar de nosso esplendoroso templo.

Não pensem vocês que, ao redigir de modo aparentemente tão seguro, eu já tenha deixado de fazer as buscas que aqui declaro inúteis ou improdutivas. O hábito ainda persiste, mas, consciente dessa tendência, já luto, com olhos um pouco mais lúcidos que antes, para corrigir o rumo – e a grande batalha é, talvez, a de tornar sentimento o que ainda se mantém prisioneiro do raciocínio. Ademais, muito já ouvi que os ouvidos mais próximos de quem fala para os outros são justamente os daquele que fala; logo, os olhos que primeiro leem algo que se escreve são precisamente os daquele que escreve.

E o próprio exercício da escrita, aqui mesmo neste blog, reitera o que ora procuro expor. Desde o último artigo publicado, há pouco mais de dez dias, pelo menos outros três assuntos me vieram à mente para serem aqui abordados, mas nenhum deles se consolidou, se sedimentou (conforme, aliás, diria um notável mestre da escrita, com cujas ideias estive em contato constante durante muitos anos, e que pretendo citar em texto próximo, justamente sobre essa prática). Mas, diante de fatos que intensamente vivenciei e reflexões em que profundamente mergulhei durante a última semana, este tema da busca simplesmente aflorou e cresceu de tal modo que não pude deixar de manifestá-lo por estas linhas, sem ter sido buscado, mas apenas encontrado enquanto buscava a mim mesmo – e respostas em mim mesmo. A torrente foi mais forte e, nessas situações, só nos resta nadar na mesma direção.

Podemos estabelecer uma meta, traçar um roteiro, mas, não há dúvida, o caminho se faz sobretudo ao caminhar. E, por mais desvios que se nos apresentem, por maiores as surpresas e obstáculos na estrada, ao estarmos seguros na caminhada, cuidando mais de nossas sandálias do que das pedras que elas pisem, qualquer passo será dado com a certeza de que estamos no caminho certo, sempre.

Comentários

  1. O maior e mais duradouro encontro é o encontro de nós mesmos, ou o casamento alquímico _ como se referem os iniciados. O resto é passageiro...

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