Música e vibração

Devo muito do que sou, ou do que eu quero ser, à música. E devo muito do gosto que tenho pela boa música à influência de minha família, sobretudo de meu pai, e às nossas raízes italianas – ou, mais especificamente, napolitano-calabresas.

É verdade que, tanto por circunstâncias da vida, como, acima de tudo, por negligência minha para comigo mesmo e certa miopia ao traçar minhas prioridades de vida, algumas das quais ao menos parcialmente equivocadas, acabei por não aprender a tocar um instrumento musical ou praticar canto lírico – talvez a maior frustração que carrego, mas algo que ainda tenho tempo, acredito, de consertar (para então, quem sabe, concertar).

A música costuma tocar tão profundamente minha alma que passei a ter a certeza de que é um dos mais poderosos alimentos energéticos de que temos à disposição. Arrisco dizer que os gêneros musicais que elegemos – se é que elegemos, pois talvez seja algo mais forte que nós, assim como não escolhemos a quem amar – como de nossa preferência são, se não determinantes, preponderantes ou no mínimo muito importantes para constituir quem nós somos.

Fico então a refletir em que medida há – pois estou certo de que há – alguma relação entre a qualidade da música que ouvimos e a qualidade de vida que temos. E agora não estou falando apenas de mim mesmo, ou de você, de seu vizinho, mas de todos nós, enquanto população de um país e integrantes de toda uma humanidade.

Ao ligar a TV, o que mais vemos são atrações musicais de qualidade altamente questionável. E, ao vê-las, antes de abaixar o som ou mudar de canal, me lembro de alguns dos grandes compositores, músicos e cantores, vivos ou desencarnados, ainda jovens ou já em idade avançada, de quem poucos se recordam ou que têm um número de fãs – ou seguidores, como está mais em voga – bem abaixo do que mereciam. E bem abaixo dos que estão na crista da onda sem merecer, lamentavelmente.

Semanas atrás meu pai lembrou-se do cantor e compositor cubano-americano Jon Secada, dono de uma bela voz, que esteve em alta em certas fases entre as décadas de 1990 e 2000, mas a quem eu nunca dei muita atenção. Encontramos um CD dele em casa, botamos para tocar, algumas músicas boas, outras nem tanto, mas sem dúvida sobressaía a belíssima “Angel”, em versões em inglês e espanhol. E me perguntei: como e por que as pessoas não dão valor a uma música como essa? Ela merecia ser tão tocada e amada quanto “Let It Be” ou outra de semelhante envergadura artística.

E me pergunto mais: por que relativamente poucos conhecem Oswaldo Montenegro, um dos maiores poetas musicais que temos? Por que quase ninguém nunca ouviu falar de Jessé ou de Francisco Petrônio, vozes das mais belas que já tivemos, ou do talentosíssimo músico Marcus Viana? Por que raríssimos já ouviram “Oração nos Matagais”, de Altay Veloso, que tem, para mim, uma das mais belas estrofes de nossa música: “Aqui dentro de mim tem um luar / Um amanhã que anseia por alvorecer / Creio que o segredo é cavalgar / No ventre da noite / Sem medo de me perder”? Por que Zé Ramalho, Guilherme Arantes, Almir Sater e Renato Teixeira não são considerados tão geniais quanto outros grandes nomes da música brasileira? Quantos brasileiros sabem quem foi sua conterrânea Bidu Sayão, uma das maiores sopranos da história da ópera? Quantos, seja aqui ou mundo afora, já ouviram Karen Carpenter, Carly Simon ou mesmo Julio Iglesias, idolatrado décadas atrás? Quantos sabem que é Ennio Morricone, autor de diversas trilhas sonoras para o cinema, para mim um dos maiores gênios da história da música e da arte como um todo, tão grandioso quanto Mozart e Beethoven?

Talvez alguns questionem que eu esteja argumentando conforme as minhas preferências. Sim e não. Sim, porque de fato os exemplos que dei há pouco estão entre aqueles de minha predileção pessoal. Mas igualmente não, pois sei reconhecer a boa música, qualquer que seja, ainda que não faça parte do que mais gosto. Não sou, por exemplo, fã de bossa nova, e não tenho nenhum CD de João Gilberto, que nos deixou no dia anterior a este em que escrevo. Ainda assim, reconheço o enorme valor do gênero (mais do que isso: movimento) musical que é a bossa nova, sua qualidade e importância artística e cultural, bem como a relevância fundamental de João Gilberto para a musicalidade brasileira, além de ter mostrado, em definitivo, que vozes de quaisquer tons e alturas podem trazer grande contribuição para essa nobre e democrática arte que é a música. Também não costumo ouvir samba, mas paro para ver e ouvir Martinho da Vila ou Zeca Pagodinho quando os vejo na TV, pois os admiro demais e me divirto com suas canções.

Música é vibração. E a música que vibra em nós influencia fortemente aquilo que vibramos para os outros, para o mundo e, claro, para nós mesmos. Acredito que haja momentos e momentos para ouvirmos quaisquer gêneros musicais; há momentos que exigem calma, bem como outros que requerem agitação. Contudo, ouvir predominantemente músicas que induzem à revolta (por favor, não confundam revolta com indignação ou sede de justiça), ou que incentivam a licenciosidade, ou então que alimentam o sofrimento desmedido, a meu ver tende a acrescentar massa ao que não temos de tão bom em nós mesmos.

Reconheço que o excesso do que é bom também tende a nos prejudicar – como o excesso de amor ou de bondade –, e isso também pode ocorrer com a música. Ouvir sem parar, e sem alternância de outros gêneros, música erudita, por mais sublime que seja, pode sim levar a um enclausuramento mental e emocional perigoso, assim como apreciar repetidamente a belíssima (mas triste) canção napolitana “Core ’Ngrato”, uma de minhas preferidas, ou a não menos bela “Solitaire”, pode conduzir a estados depressivos de alto risco para a saúde, inclusive física.

Posso estar errado, mas fortemente desconfio (parafraseando outro grande João brasileiro, o Guimarães Rosa: quase nada sei, mas desconfio de muita coisa) que exista uma intensa relação entre a qualidade musical e o estado emocional de nosso país e nosso mundo. Não que uma coisa seja causa da outra, ou, se for causa, que seja a única; talvez seja mais sintoma que causa. De qualquer modo, se tenho uma convicção, é a de que no mínimo o que ouvimos alimenta ou retroalimenta o que sentimos, e é bem possível que o número de casos de depressão ou de suicídio fosse bem menor se tivéssemos uma educação musical implantada e consolidada nas escolas, bem como maior incentivo a iniciativas como a do Instituto Baccarelli – criado por outro que nos deixou há pouco, o maestro Silvio Baccarelli –, que educa musicalmente mais de mil crianças e adolescentes da comunidade de Heliópolis, na zona sul de São Paulo.

Sou, apesar de tudo, um otimista. E recorro àquela que considero a música de minha vida, a ária italiana “Nessun Dorma”, da ópera Turandot, de Giacomo Puccini, que ao seu final declama: “All’alba vincerò” (ao amanhecer vencerei) – para enfim dizer, aos brados ou ainda que aos sussurros, que por certo haverá um amanhecer em que nos tornaremos vencedores, e teremos sol brilhando música de todos os tipos e estilos, mas sempre em ritmo celestial.

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