Quem terá tamanha coragem?
O vírus ebola se espalha
pela África central, já tendo vitimado fatalmente, até este momento, milhares
de pessoas apenas na República Democrática do Congo. Moradores de rua morrem de
frio na cidade mais rica (?) do Brasil, São Paulo. Em diversos países,
inclusive em recantos esquecidos de parte daqueles considerados mais abastados,
ainda há gente que mal tem o que comer. Voltando ao Brasil, milhões sofrem nas
filas e corredores de hospitais enquanto a corrupção corre (e come) solta,
desviando para bolsos particulares recursos que salvariam – ou ao menos
amenizariam os sofrimentos de – toda uma coletividade.
Mas não quero falar dos
que agem à margem da legalidade (e da moralidade). Quero me dirigir, sim, aos
que simbolizam uma profunda injustiça dentro dos campos do que é permitido, do
que não foge às leis, e poderiam agir corajosa e decisivamente em prol de um
mundo melhor, mais equânime, mais equilibrado.
Todos nós, é claro,
podemos fazer a nossa parte, dar o nosso quinhão, por menor que seja, de
diversas maneiras. Mas o que grita à nossa alma, o que nos escandaliza,
intensamente, é ver que, enquanto milhões morrem de fome ou de doenças que
poderiam ser evitadas ou, no mínimo, controladas, alguns milhares ganham
fortunas – e na qualidade de pessoas físicas, não jurídicas – em um único mês e
não fazem nada no sentido de acabar com essa disparidade vergonhosa.
Jogadores de futebol, por
exemplo. Um número que não é pequeno deles ganha mais de um milhão de reais – ou
de euros – por mês, sem necessariamente serem grandes estrelas. E há mesmo
jogadores medianos arrecadando centenas de milhares de reais a cada trinta
dias. Diante disso, não dá nem para reclamar do que ganham os políticos com
seus salários – ou seja, sem se falar em atos escusos e penduricalhos
indecentes –, pois, caso se contentem com isso e não partam para outras vias de
aquisição de dinheiro, precisarão de muitos anos para amealhar o que número
considerável dos futebolistas consegue em poucos dias.
E eu me pergunto: por que
não podem os jogadores, bem como outros que ganham semelhantes quantias, se
unir e empregar boa parte de suas fortunas para contribuir na resolução dos
grandes problemas humanitários que elenquei no início deste texto, entre outros
tantos? Será que não têm consciência do poder que possuem? Não se compadecem do
sofrimento alheio, na maioria das vezes de gente com a mesma origem social
deles? Poderiam também peitar seus próprios clubes para que, em vez de lhes
pagarem fortunas, reduzirem seus salários para algumas dezenas de milhares
(algo que qualquer “mortal” adoraria receber), não importa a moeda, e
destinarem o enorme excedente para empreendimentos sociais, ambientais, beneficentes,
etc., que favoreçam muito mais pessoas. Mas quem terá tamanha coragem?
Isso não é conversa de
comunista, pois não o sou, até porque vejo como uma grande ilusão querer
resolver (se é que vai resolver) problemas da mais alta gravidade de maneira
artificial, de fora para dentro, mais pela força do que pela evolução natural
de pensamentos e ações humanas. Mas nem por isso deixo de ter severas críticas
ao que vivemos sob o regime capitalista que predomina em nosso planeta. Enfim,
não importa sob qual “ismo” vivamos, ou qual “ismo” adotemos como nossa
filosofia de vida, como nosso norte material, mental, moral ou espiritual, as
soluções precisam vir de dentro para fora, por meio de disposições e iniciativas
individuais que se congreguem em um ímpeto coletivo – e não o contrário.
Muitos talvez
classifiquem este texto de utópico. Pouco importa. Tive a coragem de escrevê-lo
e publicá-lo, correndo o risco de ser tachado de ridículo por parte dos que
vierem a lê-lo. E quem sabe com isso se desperte uma coragem muito maior naqueles que podem muito mais do que eu. Ao menos estou tentando.
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