O valor de questionar, discernir e ampliar
O ardente debate a
respeito das queimadas e demais formas de desmatamento da floresta amazônica,
nestas últimas semanas, mais do que a preocupação com o destino do mais vasto
bioma brasileiro – bem como com a qualidade de vida no planeta, decorrente,
entre outras causas, desses lamentáveis acontecimentos –, tem me propiciado
reflexões sobre o pouco valor que se tem dado a três práticas fundamentais para
qualquer discussão que se pretenda saudável, consistente e eficaz: questionar,
discernir e ampliar.
Os debatedores mais
contundentes se dividem, em sua maioria, em dois grupos bem definidos: os que
criticam o atual governo brasileiro e o apontam como o grande responsável pelo
volume impressionante de queimadas este ano; e aqueles que, em sintonia com o
presidente Jair Bolsonaro, têm indicado organizações não governamentais (ONGs)
como atuantes nos eventos de destruição da floresta, e também criticado países
estrangeiros e personalidades famosas que se manifestaram contra a devastação
da Amazônia e o dirigente máximo de nosso país.
É evidente uma postura
diferente do atual governo, em relação a seus antecessores das últimas três
décadas, no trato das questões ambientais. Mas aí começam as distorções
envolvendo as três premissas que apresentamos como essenciais para um debate
que venha a gerar bons resultados. O embate ideológico que emergiu – não
surgiu, pois é bem anterior e se encontrava apenas adormecido – após escândalos
sucessivos durante as administrações petistas, ganhou corpo com o impeachment
de Dilma Rousseff, se avolumou ao longo da campanha para a última eleição
presidencial e tem ganhado contornos nebulosos nestes primeiros meses de gestão
Bolsonaro – embate esse que tem sido igualmente alimentado por fenômenos
semelhantes no exterior – está contaminando profunda e maleficamente quase
todos os debates que envolvam tópicos importantes relativos aos caminhos que o
Brasil deva trilhar.
Afinal, o que se quer?
Chegar à verdade e resolver o problema? Ou simplesmente ganhar o debate, apenas
pelo prazer de derrotar o oponente? A que serve, enfim, debater: alcançar a
melhor solução ou mostrar-se com a razão (ou melhor, “A Razão”, a única) diante
do adversário? Pouco se questiona para que se desvelem os fatos. Pouco se tenta
discernir entre as diferentes causas e agentes do problema. Pouco se procura
ampliar para além do que se mostra mais evidente e superficial. Cada lado do
embate já apresenta de antemão suas verdades pré-fabricadas – compostas de
fragmentos de realidade amalgamados a direcionamentos previamente delineados
conforme seus interesses ou preferências – e quase nada se avança rumo a
qualquer solução que se mostre consistente (se houver alguma, será ao modo O Leopardo, livro do italiano Giuseppe
di Lampedusa, em que determinada personagem sugere que “tudo deve mudar para
que tudo fique como está”).
Com relação
especificamente aos eventos antiecológicos que têm efervescido os atuais
debates, há questões em quantidades amazônicas no ar, mas poucos se arriscam a
fazê-las, e bem menos que poucos tentam encontrar respostas, já que se
satisfazem com aquelas que outros lhes dão e, a seus olhos, são suficientes
para explicar a situação por completo. Por exemplo: Quais são, realmente, os
principais agentes das queimadas e derrubadas de árvores na Amazônia? Quais os
motivos para essa destruição? Há alguém por trás deles? Os números indicam que
os focos de desmatamento aumentaram na gestão Bolsonaro; mas por quê? E quais
as motivações intrínsecas dessa mudança? E, independentemente de quais sejam elas, porventura
durante os governos anteriores também não se alcançaram índices alarmantes, ou ao
menos preocupantes? Por que não se estabeleceu, nas últimas décadas, uma
política consistente de combate à devastação, que pudesse permanecer qual fosse
o governo ou ideologia no poder? Não se têm ouvido instituições importantes,
como a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), o Inpa (Instituto
Nacional de Pesquisas da Amazônia), o Museu Emilio Goeldi? De que maneira e em
que medida é possível conciliar desenvolvimento econômico e preservação
ambiental, de modo a beneficiar não apenas a floresta, como a população como um
todo, dos indígenas e ribeirinhos aos habitantes das grandes cidades,
melhorando índices de educação, saúde e saneamento básico, entre outros? Já há
experiências-modelo de conservação ambiental, conciliando agropecuária e mata
original? É possível e viável explorar as reservas de nióbio e outros minerais,
com o mínimo de dano ambiental? Podem-se explorar os recursos da floresta e seu
subsolo nas reservas indígenas e extrativistas, de forma sustentável, com a
participação e proveito daqueles que as habitam? Quais ONGs são efetivamente
benéficas à preservação da Amazônia, e quais apenas se beneficiam das verbas e
pouco ou nada fazem de concreto? Quais os reais interesses dos países
estrangeiros na floresta equatorial sul-americana? Há condições para
reflorestar, de que maneira e com que espécies? Uma parte da mata, da original
à reerguida, pode ser usada para exploração de madeira, sem significativos
impactos ambientais? Como se encontra a questão fundiária na região, dos
grileiros aos fazendeiros legalizados, passando pelos pequenos produtores, e
quais os efeitos de sua atuação na floresta? E, a fim de evitar vultosos
desmatamentos ao se levantarem grandes empreendimentos, por que, por exemplo,
não usar mais fontes de energia solar e eólica do que a dos rios, evitando a
construção de enormes usinas e reservatórios?
Enfim, talvez sejam
inúmeras as questões a se elencar a fim de se discernirem causas e
consequências, prejuízos e benefícios, agentes e alvos, acertos e distorções,
metas e ilusões, veleidades e consistências, manipulações e equívocos, desafios
e soluções – e assim consigamos ampliar o debate, indo muito além dos
reducionismos que se arvoram nas entranhas das mais flamejantes discussões, das
quais a que engloba a Amazônia é pequena amostra. Mas como estimular sociedade,
imprensa, órgãos públicos, partidos, governos e demais participantes dos
debates a desenvolver as capacidades de bem questionar, discernir e ampliar?
Eis, talvez, a grande questão, a desafiar o nosso discernimento, em prol de
promover a ampliação de nossa visão de mundo e postura de vida.
Comentários
Postar um comentário