Sem horizontes

Moro a duas quadras de uma estação de metrô inaugurada há pouco menos de dois anos, na zona sul de São Paulo. Esperei ansiosamente por sua abertura, acompanhando anos e anos de obras – dela e das demais estações da linha –, buscando notícias sobre seu andamento e sonhando com o momento em que passaria a me sentir integrado a essa grande cidade como nunca estivera antes. Com muito gosto, fui à inauguração dela e, no ano seguinte (o passado), à daquelas que finalmente ligaram a linha às outras da rede metroviária.

Reconheço que até agora usei o novo metrô muito menos do que imaginava – mas, inegavelmente, tem quebrado um galhão quando necessário. Um efeito colateral, porém, tem me incomodado profundamente. Tinha noção de que a nova linha e suas respectivas estações transformariam os bairros por onde passam, mas não a ponto de seriamente arriscar – mais do que transformá-los – transtorná-los. E me refiro especificamente à descaracterização e caotização (mais do que já há) da cidade pela corrida imobiliária.

Na rua onde moro, três casas próximas já foram demolidas para dar lugar ao terceiro prédio (a começar por aquele onde moro) em menos de cem metros de calçada – e há notícias de que haverá outro quase em frente. Em uma das avenidas em que se localiza a estação de metrô, cerca de quinhentos metros separam três empreendimentos, um deles de grandíssimo porte, comportando mais de uma torre. Um pouco adiante, outros quatro despontam, em diferentes fases de comercialização ou construção, dois dos quais um em frente ao outro, em uma rua estreitíssima, já de difícil circulação quando lá existiam apenas casas.

Mas é o progresso, a economia precisa se aquecer, empregos precisam ser gerados, por certo muitos dirão. Ok, não nego. Contudo, questiono: haverá suporte, em diferentes aspectos de infraestrutura, para tamanho adensamento populacional? O metrô dará conta de tanta gente circulando, de modo a manter sua qualidade, a qual, aliás, falando-se do sistema como um todo, já foi bem melhor? Os novos moradores de fato usarão mais o metrô do que o carro, como alegam muitos dos defensores de tão forte ritmo e tão grande extensão para tal expansão imobiliária? E, se isso não acontecer (a meu ver o mais provável, pois não se usa metrô para tudo numa cidade gigantesca cujo sistema de transporte metroviário ainda mal supera cem quilômetros de linhas), como ficará o trânsito de veículos na região? Como, enfim, organizar o caos dentro do caos?

E igualmente me dói ver a mudança brusca da arquitetura da cidade. Pouco ou não se respeita a importância e beleza do casario paulistano, composto de variados tipos e estilos. A mudança de cara da capital paulista, bem como de quase qualquer outra cidade, é inevitável, e tem seu lado saudável. Mas precisa ser tão grande, tão impactante, tão brutal? Não poderia haver uma limitação, por exemplo, um percentual (30%, 40%) por quarteirão, acima do qual se impediria o erguimento de grandes empreendimentos? Não se prevê nada semelhante no plano diretor ou na lei de zoneamento? Por quê? E, se há algo nesse sentido, por que não é executado? Talvez não seja preciso responder...

Décadas atrás, estive num aniversário realizado no térreo de um edifício no bairro de Moema, próximo de onde estou, um dos que há mais tempo têm forte adensamento predial e populacional em São Paulo. Em determinado momento, ao alçar os olhos metros acima, quase passei mal. Não se via qualquer horizonte, era prédio ao lado de prédio, em 360 graus. Sensação horrível. Será que logo terei semelhante vertigem no bairro onde tão carinhosamente moro, e onde ainda tenho o privilégio de ter uma vista agradável à janela de meu quarto, mesclando casas, prédios, ruas, árvores e pássaros?

É um assunto que me incomoda há um bom tempo. Em 2011, quando estava à frente do blog “TransCiências: Ciência e Transdisciplinaridade”, publiquei, em 19 de agosto daquele ano, o texto intitulado “São Paulo: cidade e identidade em demolição”. Muito do que escrevi até aqui já havia exposto, às vezes de modo muito semelhante, nessa postagem de quase oito anos atrás. Mas com dois detalhes interessantes. O primeiro é a menção a uma reportagem de então do jornal O Estado de S. Paulo, segundo a qual, à época, três imóveis eram demolidos por dia na cidade – não sei se a estiagem econômica que veio alguns anos depois, da qual ainda não saímos, permitiu manter tal ritmo, mas, se mantido, resultou em mais de 8,7 mil imóveis destruídos de lá para cá. O outro detalhe a destacar é a lembrança de uma ideia ventilada por um grande mestre de quem tive o prazer de me tornar amigo, o professor e cientista (biólogo, geneticista, dos maiores da história da ciência) Crodowaldo Pavan, que havia nos deixado dois anos antes.

Reproduzo o texto de 2011 logo abaixo, constatando que nada mudou desde então – e que está difícil, muito difícil mesmo, nessa questão, enxergar quaisquer horizontes.

São Paulo: cidade e identidade em demolição

Poucas coisas me deixam mais indignado, hoje em dia, do que ver quarteirões inteiros de casas derrubados para dar lugar a edifícios imponentes, cujos muros mais parecem de fortalezas medievais, em diferentes bairros de São Paulo – imagino que outras cidades brasileiras devam sofrer do mesmo problema.

Muitos dirão que é o progresso, que a construção civil é um ramo vital para a nossa economia, que milhares de empregos são gerados, etc. e tal. Mas se esquecem de que, com os prédios recém-construídos, mais gente se acumula numa única quadra, cresce a demanda por serviços mais eficientes de eletricidade, água e esgoto, o trânsito aumenta, a poluição também, e o caos se instala ou se reforça onde parecia não mais ser possível a coisa piorar.

E digo mais: casas de alto valor arquitetônico são destruídas e bairros inteiros são descaracterizados, ameaçando tirar da maior cidade do hemisfério sul um dos elementos que mais lhe conferem graça e beleza, apesar de seus imensos problemas: a variedade de estilos de seus casarios, refletindo o caldeirão cultural paulistano. Ainda se pode dizer que cada bairro de São Paulo tem a sua cara – mas até quando?

O Estado de S. Paulo revela que 4.713 casas e galpões industriais deram lugar, nos últimos quatro anos e meio, a nada menos que 155.610 apartamentos na capital paulista, como se pode ver na matéria “3 imóveis são demolidos por dia em SP”, que é capa da edição de hoje do caderno Metrópole do jornal.

Se calcularmos que uma família paulistana comporta em média três pessoas, e supondo – no chute mesmo – que, dos 4.713 imóveis demolidos, cerca de 4.500 fossem casas, São Paulo se adensou mais de 450 mil residentes nos locais em que os novos empreendimentos foram levantados.

Ademais, numa cidade carente de centros esportivos, científicos e culturais, poucos são os galpões convertidos em locais que possam gerar riqueza não a incorporadoras e construtoras, mas sim à população como um todo, na forma de “mini-Sescs” ou “mini-Estações Ciência”, como pregava o inesquecível Crodowaldo Pavan, cientista dos mais eminentes que já tivemos e que tive o prazer de conhecer.

Onde tudo isso vai parar? De pouco adianta se discutir o plano diretor da cidade se a corrupção grassa vergonhosamente nas intersecções entre o poder público e o mercado imobiliário. Além disso, os próprios moradores das casas a serem demolidas acabam conquistados pelas atraentes propostas das incorporadoras, muitas vezes sem esboçar qualquer reação contrária.

As esperanças são poucas, infelizmente.

Comentários

  1. Está muito difícil mesmo. Aqui ao lado do meu prédio foram demolidas 6 casas para a construção de 4 prédios num mesmo terreno. Um grande empreendimento que vai me tirar a vista, vai atrapalhar a insolação e o pior de tudo, vai acabar com as árvores onde muitas maritacas, sabiás e rolinhas vivem. Isso sem contar com a poeira e o barulho. Se a rua da lateral do meu edifício já é totalmente congestionada das 8:00 às 10:30, imagine com mais 300 carros! É triste ver que a urbanização consciente não existe. Não há planejamento e nem preocupação com o entorno de grande obras. O poder econômico dita as regras e nós pagamos o pato...

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    1. Muito triste, Tamara! Agradeço seu precioso comentário, complementa muito bem (e acrescenta) o que procurei expor no texto.

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