Quatro apontamentos sobre o (ou a partir do) racismo

A absurda morte do negro George Floyd por um policial branco, tanto quanto causar enorme indignação pelo fato em si, parece ter sido – e espero que efetivamente tenha sido – a gota d’água para o multissecular e gravíssimo problema do racismo. Manifestações inúmeras pelos Estados Unidos e por outros países têm impactado o mundo neste momento, em patamar semelhante ao da pandemia de covid-19, dando-nos a esperança de um futuro melhor, como dores de um parto a dar à luz uma nova era. Eventos que nos comovem por serem pacíficos – ainda que alguns deles terminem com focos de violência, por obra de alguns que não deixam de ser alguns, em nítido contraste com a maioria, ou da própria polícia – e por terem participação expressiva de brancos, lado a lado com negros, como fortes indicativos de uma nova consciência a florescer na humanidade.

Mas tal reação positiva a um fato absurdo que simboliza séculos e mais séculos de opressão é apenas um passo, embora firme e necessário, entre outros tantos que precisam ser dados, em diversos níveis, para que consigamos um dia, se não extirpar o racismo e outras formas de violência – psíquica ou física – (o que talvez seja utópico, a não ser em longuíssimo prazo), torná-los algo que deixe de ser a regra, e passe a ser uma rara exceção. Quero aqui expor e colocar em discussão quatro apontamentos, que quem sabe nos permitam enxergar melhor quais esses passos a dar, com segurança e coragem, assim que a efervescência do momento ceda lugar a reflexões mais tranquilas, porém com resultados tão incisivos quanto os que esperamos venham do quadro de indignação atual.

1) Quem de nós pode se dizer livre de qualquer tipo de preconceito? Podemos até querer o bem a todos, mas quantos de nós temos amigos de cores, raças ou etnias diferentes da nossa? Se os temos, ainda que sejam relações calcadas na mais pura e profunda amizade, realmente os vemos como iguais, enxergando mais as suas almas, os seus corações do que seus traços ou a cor de suas peles? Ainda assim, aceitaríamos facilmente o fato de um filho nosso namorar ou se casar com alguém que ‘fuja ao nosso padrão’, vindo talvez a gerar netos diferentes da nossa ‘linhagem’? Ok, podemos não ser racistas, mas será que não temos preconceitos de outras ordens: contra o sexo oposto, contra quem tem orientações sexuais que não sejam a nossa, contra quem se veste ou tem penteado diferente, contra quem tem outros estilos de vida, outros gostos musicais, torce para outros times, tem medidas, estruturas ou características corporais diversas da nossa, etc. etc. etc.?

Não nos condenemos por isso, mas busquemos ser honestos conosco mesmos e trabalhemos intimamente, por meio da reflexão e da ação já nas pequenas coisas, para que pouco a pouco consigamos limar esses detritos, grandes ou pequenos, que estão impregnados em nós. Haverá quem questione, por exemplo: “Procuro não alimentar ideias preconcebidas, mas percebo que pessoas de determinada região do país, de outra nacionalidade, de um bairro específico, de uma categoria profissional ou que seguem certa religião têm esse ou aquele costume que não vejo como correto ou adequado, ou, então, são frescas, esquisitas ou bagunceiras; não se trata de preconceito, é uma constatação”. Aí temos um outro perigo, que é o da generalização. E precisamos continuar questionando (prática, aliás, das mais saudáveis, desde que não se torne um ‘questionismo’, questionar por questionar): Será que todos da mesma região, nacionalidade, bairro, profissão ou religião agem assim? Será que pessoas de outros locais de origem ou moradia, com outros trabalhos ou que seguem outros credos não têm semelhantes costumes? E mais: Tais costumes são de fato incorretos ou inadequados? Por quê? O que fundamenta tal avaliação?

Enfim, precisamos fazer uma profunda autoanálise e nos perguntarmos: O quanto ainda há de preconceito(s) em nós, ou de distorções outras que empanem ou embacem nossas visões de mundo? É sem dúvida um passo a ser dado, desde que, claro, se busquem as respostas e dessas respostas sobrevenha uma ação mais positiva, proativa e propositiva, rumo a que tenhamos relações mais justas e equilibradas com nossos semelhantes, e também conosco mesmos.

2) As presentes manifestações pedem justiça, pedem ações políticas, que são urgentes e necessárias, mas é preciso muito mais, em grande, média e pequena escalas, de modo a modificar a estrutura da sociedade. Não me refiro a mudar radicalmente, de uma hora para outra, violentamente, os grandes sistemas econômicos, políticos ou de convivência – por mais defeitos que eles comportem, e por mais graves que sejam, não vejo como possível, e muito menos como saudável e eficaz, alterá-los artificial ou forçosamente. As tentativas anteriores de implantar sociedades igualitárias resultaram em fracasso, entre outros motivos, por uma razão bem simples: não é possível chegar à igualdade sem que, antes, haja equanimidade – e ser equânime significa ser justo, imparcial, oferecer, tanto quanto possível, igualdade de condições, sem haver, a priori, igualdade de resultados, o que viria a ser fruto de um processo maior, mais amplo e mais longo, e por isso com efeitos mais duradouros. E equanimidade também implica respeito às diferenças, das exteriores às interiores, ou seja, desde a cor da pele e a origem étnica até as peculiaridades, propensões e preferências de cada um, meramente individuais.

A implantação das polêmicas cotas raciais ou sociais, com todos os seus prós e contras, têm sido uma tentativa de propiciar algum grau de justiça e reparação a tudo o que negros e outros grupos historicamente desfavorecidos sofreram e ainda sofrem, mas nunca deixarão de ser – exceção feita àqueles por elas diretamente beneficiados e suas respectivas famílias – meros paliativos, ante um problema de envergadura muito maior. Tenta-se, por meio delas, resolver por cima o que precisa ser resolvido por baixo, nas bases da sociedade e dos sistemas de educação e trabalho. Por que não pensar, por exemplo, enquanto nossa estrutura educacional não apresentar melhorias mais significativas, em incentivar parcerias entre escolas públicas e particulares do ensino básico, ou entre aquelas e universidades, de modo a que as instituições com mais recursos invistam nas escolas da rede pública, capacitem seus professores e ofereçam bolsas ou outros tipos de oportunidades a seus alunos? Por que não pensar em parcerias, visando à capacitação profissional, entre empresas, universidades, escolas técnicas, organizações não governamentais e associações representantes de comunidades carentes?

Ao se abrirem oportunidades às camadas mais desfavorecidas da população, nas quais se inclui a maciça maioria dos negros, e já nos aspectos básicos, seja da educação ou do trabalho, entre outros campos da atividade humana, haverá maior integração, maior inclusão dos que hoje estão à margem da sociedade, o que com o tempo tenderá a reduzir o racismo, até porque se propiciará uma interação mais ampla, e de modo mais equânime, entre crianças brancas, negras e de outras raças – e bem sabemos que, tal qual o aprendizado de um idioma ou de instrumento musical, quanto mais cedo o aprendizado da fraternidade se der, mais consistente será a convivência entre os que são diferentes na superfície ou nos substratos intermediários, mas iguais em essência.

3) O racismo tem clara relação com os séculos de escravidão dos negros pelos brancos, seja aqui no Brasil, seja nos Estados Unidos ou em outros países. Mas essa é apenas uma das muitas faces do problema. Aliás, já é difícil estabelecer se o racismo é causa ou consequência – talvez seja ambas as coisas, numa complexa relação dinâmica e retroalimentada – da horrível condição a que os negros foram submetidos até o século 19, com claros reflexos até estas duas primeiras décadas de século 21. O que não podemos perder de vista, porém, é que o racismo contra os negros, ainda que seja o mais forte e evidente, não é o único existente; há outros tantos. E eles não foram os únicos a serem feitos escravos. Antes deles, no Brasil, os portugueses escravizaram os índios. E houve escravidão e outros tipos de submissão de povos diversos no Império Romano; ela havia até mesmo entre os ilustradíssimos (até que ponto?) gregos, bem como ocorreu entre os povos africanos, depois vítimas dos europeus, além da Ásia e da América pré-colombiana. A escravidão, enfim, era uma instituição internacional! E ainda existe em seu sentido clássico – ou seja, sem contar as inúmeras escravidões de cunho psicológico –, dadas as descobertas recentes, aqui mesmo no Brasil, de regimes de trabalho escravo no campo ou em centros urbanos, clandestinamente.

O que salta aos olhos é que, mais do que séculos de escravidão, a humanidade convive com milênios de relações de dominação dos mais variados tipos e formatos. A começar, talvez, pela dominação de homens sobre mulheres, seguida pela de pais sobre filhos (em se falando, claro, de pais opressores), de uma família sobre outra, de um clã sobre outro, de um povo sobre outro, de um país sobre outro, e assim por diante, num rol que inclui patrícios e plebeus, senhores e servos, suseranos e vassalos, governantes e governados, patrões e empregados (não que, no caso destes dois últimos pares, não possa haver uma relação equânime, mas sabemos que não é uma regra amplamente seguida).

Até quando as relações humanas serão mormente regidas pela dominação? Quando veremos prevalecer relações colaborativas, e não competitivas? Não quero com isso defender a extinção de relações hierárquicas, elas são necessárias em diversos contextos, talvez a grande maioria deles; mas que sejam regidas pela sabedoria, por um senso de ensino e aprendizado em via de mão dupla, por um equilíbrio entre o merecimento pelos prêmios conquistados e o oferecimento de condições amplas e dignas de crescimento em níveis individual e coletivo. Também não sou terminantemente contra um certo grau de competividade, mas é preciso que a competição seja relativizada, moderada por um sentido maior, em que a colaboração e o trabalho conjunto falem mais alto. Em outras palavras: a tudo sua justa medida, a sua dose certa.

4) Onde estão as iniciativas para pagar a enorme dívida que temos com a África? Claro, podemos acrescentar os povos indígenas do continente americano e outros mundo afora, vítimas da dominação de origem europeia. No entanto, ao se falar em racismo, e ao mais chocante deles de meados do último milênio até hoje, que é o que atinge os negros, espanta-me pouco se falar do continente de origem dessa nobre raça, que tanto contribuiu e contribui para nossa cultura, nossa economia, nossa sociedade. Mesmo ao se usarem os adjetivos ‘afro-brasileiro’ ou ‘afro-americano’, pouco é lembrado o que até hoje sofre o terceiro maior continente do planeta, três vezes maior que a Europa, violentado pela escravidão, retalhado pela colonização europeia e hoje estrangulado pela pobreza, pela doença e pela fome. Por que isso? Por que, aliás, a história da África não merece, nas escolas, o mesmo destaque que a europeia, já que temos, aqui, descendentes de africanos em semelhante número que o de descendentes de europeus. Por que já ouvimos falar da Eslováquia e da Letônia, mas não da República Centro-Africana e do Malawi?

Qualquer ação contra o racismo trará frutos de poucas sementes se não for complementada por iniciativas que comecem a resolver os enormes problemas, do mais alto caráter humanitário, que assolam o continente africano. Se não queremos mais barreiras entre brancos e negros, por coerência não podemos querer a manutenção das diferenças (gritantes, por mais grave seja a situação deste lado do oceano) entre os negros daqui e os negros de lá, do outro lado do Atlântico.

É urgente continuarmos a combater o racismo – essa outra pandemia, conforme dito por Ben Crump, advogado da família de George Floyd, e das mais mortais e longínquas –, mas não podemos perder de perspectiva os aspectos aqui abordados, que passam pelo que ocorre dentro de nós mesmos, pelo que estrutura a sociedade, pelo que provém da história e pelo que cabe a nós pagar do tanto que já fizemos de nocivo ao longo dos séculos. Será um bem não apenas para os negros e demais vítimas de discriminações as mais diversas, mas para toda a humanidade, pois não há bem que se faça sem que se espalhe em todas as direções, indistintamente. Pensemos a respeito.

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