Cem vezes música
[Texto publicado originalmente, na mesma data, na página pessoal do autor no Facebook: https://www.facebook.com/mcdest/]
Vínculo entre a vida do espírito e a vida dos sentidos, segundo Beethoven. Aquela sem a qual a vida seria um erro, nas palavras de Nietzsche. A mais alta filosofia em linguagem que a razão não compreende, conforme Schopenhauer. Aquilo que, depois do silêncio, mais é capaz de expressar o inexprimível, na visão de Aldous Huxley. O tipo mais perfeito de arte, que nunca revela o seu último segredo, para Oscar Wilde. O verbo do futuro, de acordo com Victor Hugo. Ou simplesmente a arte do som, como define Osvaldo Lacerda, pianista, compositor e autor do “Compêndio de Teoria Elementar da Música”.
Mas é possível definir o indefinível? Tantas poderão ser as definições para o que seja música – belas, profundas, abrangentes, complementares e enriquecedoras entre si –, mas efetivamente nada, nenhuma combinação de palavras poderá colocar limites, estabelecer um fim, dar um acabamento ao que é por si só ilimitado, infinito, insofreável, transcendente. Tentar definir a música é como tentar definir a vida, algo virtualmente impossível, um delírio quixotesco.
Duração, intensidade, altura e timbre se mesclam em variações as mais diversas e a priori inimagináveis, até que se moldem sob o cinzel invisível do pensar e manejar artístico dos compositores, não raro com precisão científica, rigor matemático, destinadas então a capturar nossas mentes, a instigar nossos corpos, a cativar nossos corações, a tocar nossas almas.
E assim, profundamente imersos no que a arte da música clama ao nosso ser, ao nosso interior, chegamos, enfim, ao número 100 de “Músicas que tocam a minha alma”. E quis o destino (juro, não programei, sequer me recordava até há poucos dias) que isso viesse a ocorrer num 22 de novembro, quando se celebra o Dia do Músico.
Foram pouco mais de dezesseis meses (ou exatos 507 dias) até aqui, de início em ritmo mais acelerado, com postagens em geral a cada três dias, e hoje de modo mais suave, cadenciado, girando em torno de uma semana entre cada publicação – mas sempre com muito carinho e desvelo, em alguns casos até mesmo com informações sobre a música, considerações pessoais ou acesso a vídeos extras, nos campos de comentários, buscando tornar a experiência ainda mais agradável a quem venha a apreciá-la.
Quando comecei a série (recomendo a leitura do texto publicado no último 04 de julho, quando ela completou um ano, com acesso neste endereço: https://bit.ly/2ZCKiQb), tinha já uma considerável lista de músicas em mente, embora sem ordem clara para sua exposição, nem buscando esgotar as preferidas já entre as dez, vinte, cinquenta, ou tampouco entre estas cem primeiras. Com o tempo, porém, outras músicas vieram à lembrança e até mesmo emergiram com força, quando não haviam sido sequer cogitadas. Foi o caso, por exemplo, de “Por Brilho” (XV: 23.08.2019), de Oswaldo Montenegro, que já conhecia mas à qual ainda não tinha dado a devida atenção, tocando-me a alma em um momento especial de minha vida particular, em que ela se encaixou quase à perfeição. Foi também o caso da até então desconhecida “The Power of One” (LXV: 20.03.2020), de Greg Dombrowski, que encontrei ao procurar, no início da atual pandemia de covid-19, músicas que pudessem nos propiciar alento e nutrir esperança.
Dentro do contexto de pandemia e isolamento social, também ganharam força as já conhecidas por mim “Canto della Terra” (LXVI: 29.03.2020), com Andrea Bocelli, e “Solidão de Amigos” (LXX: 30.04.2020), na voz do saudoso Jessé.
Outros casos interessantes, anteriores à situação fora do normal que temos vivido este ano, foram os das canções “City Lights” (XXXII: 18.10.2019), do grupo holandês HAEVN – que eu sequer conhecia e foi postada semanas antes, aqui no Face, por alguém muito especial, conquistando-me o coração –, e “Dante’s Prayer” (LXIII: 03.03.2020), de Loreena McKennitt, até então esquecida, e que me ressurgiu justamente por ocasião da data em que faria aniversário uma grande amiga, já desencarnada, a qual me apresentou a cantora canadense – redescoberta essa que me causou profunda emoção. Outra música que cresceu diante de mim foi “A Whiter Shade of Pale” (LXXXV: 31.07.2020), da banda Procol Harum, que eu já conhecia, tanto por meio desse grupo como de outros intérpretes, mas cujo vídeo nos mostra uma apresentação brilhante, sublime, quase surreal de tão próxima da perfeição, altamente emocionante.
Também valem menção músicas que postei em razão de datas ou semanas de celebração: “Oração de São Francisco” (XXVIII: 04.10.2019), em versão instrumental de Tim Rescala para a telenovela “Velho Chico”; “D’Artagnan e os Três Mosqueteiros” (XXIX: 08.10.2019), música-tema de desenho marcante de minha infância, cantada por Patrícia e Luciano; a “Ave Maria” de Gounod (XXX: 12.10.2019), na voz do italiano Sergio Endrigo; “O Caderno” (XXXI: 15.10.2019), de Toquinho; “Mistérios da Meia-Noite” (XXXIV: 31.10.2019), de Zé Ramalho; “Panis Angelicus” (XLVII: 24.12.2019), na voz da mezzo-soprano Elīna Garanča; “The End” (XLVIII: 28.12.2019), dos Beatles; “Celebration” (XLIX: 03.01.2020), do duo Secret Garden; “Mulher Nova, Bonita e Carinhosa” (LXIV: 08.03.2020), também de Zé Ramalho; “Gloria” (LXVII: 08.04.2020), da “Misa Criolla” de Ariel Ramírez, na voz do tenor José Carreras; “Jesus, Alegria dos Homens” (LXVIII: 12.04.2020), de Johann Sebastian Bach; “My Love” (LXXVII: 12.06.2020), de Paul McCartney; e “Sol de Primavera” (XCIII: 23.09.2020), de Beto Guedes, na voz de Carolina Lima.
Não poderia, porém, concluir este já um tanto extenso texto sem satisfazer a algumas possíveis curiosidades de quem acompanha a série e/ou se aventurou até aqui na presente leitura. Por exemplo: das músicas cantadas, quais os idiomas mais frequentes? A maioria é cantada em inglês (30), língua seguida de perto pelo português (26, das quais 24 brasileiras e 2 portuguesas); depois vêm músicas em italiano (16), espanhol (5), francês (2), latim (2), sânscrito (2) e árabe (1) – houve ainda 14 músicas total ou predominantemente instrumentais e 2 mesclando o instrumental com vocais sem idioma definido, caso, aliás, da letra da música inaugural, “Now we are free” (I: 04.07.2019), da trilha sonora do filme “Gladiador”, composta por Lisa Gerrard, sua intérprete original, e cantada aqui por Czarina Russell, sob a regência de Hans Zimmer.
Ainda sobre as músicas cantadas, houve, é verdade, um predomínio de vozes masculinas, 62 vezes de modo exclusivo, contra apenas 19 de vozes femininas, afora 4 com ambos os gêneros e 1 com vozes infantojuvenis. Cheguei a pensar, mais de uma vez ao longo de todos esses meses de trajetória da série, se eu não estaria sendo um tanto machista na escolha das músicas. Há, reconheço, alguma dose (cabe discutir quão grande) de machismo histórico-cultural na música, como em tantos outros campos, da arte ou fora dela, mas vejo como um tanto demagógico fazer qualquer tipo de correção ou distorção no que diz respeito meramente a gostos pessoais, a preferências musicais – e, portanto, embora buscando vez ou outra dosar vozes masculinas e femininas, não fiz disso uma regra ou, mais do que isso, uma amarra (por mais que eu admire ou venere tudo o que venha do universo feminino).
E quais cantores, grupos ou compositores, afinal, tiveram mais espaço entre as cem primeiras “Músicas que tocam a minha alma”? O que mais frequentou a série, de modo direto ou indireto, foi ninguém menos que Sir Paul McCartney, duas vezes já em carreira solo (embora secundado pela banda Wings) e quatro vezes integrando os inesquecíveis The Beatles – grupo, aliás, que mais esteve na série, com três dessas músicas cantadas por Paul. Em seguida vem o grande menestrel brasileiro Oswaldo Montenegro, por cinco vezes (inclusive a de número cem, postada hoje). O tenor italiano Luciano Pavarotti aparece quatro vezes, uma delas compondo Os Três Tenores – mesmo índice de árias de óperas de seu conterrâneo Giacomo Puccini. Outro italiano, o compositor e maestro Ennio Morricone, desponta em três ocasiões, mesmo número de músicas do brasileiro Jessé, do tenor espanhol-catalão José Carreras (uma em Os Três Tenores) e do onírico grupo português Madredeus.
Frequentaram duas vezes a série: Andrea Bocelli, Céline Dion, Flávio Venturini, Sarah Brightman, Zé Ramalho e o duo Secret Garden.
Há ainda alguns casos especiais, curiosos, como (i) o do inigualável Johann Sebastian Bach, que aparece diretamente com uma música (a já mencionada “Jesus, Alegria dos Homens”), mas surge com o fundo musical da “Ave Maria” de Gounod, em releitura de seu “Arioso” na canção “Céu de Santo Amaro” (XLIV: 12.12.2019), de Flávio Venturini e Caetano Veloso, e interpretado pela flautista Madalena Salles no bloco “Serenata” (C: 22.11.2020, hoje), de Oswaldo Montenegro; (ii) de outro gênio da música erudita, Georg Friedrich Händel, que tem sua “Lascia ch’io pianga” cantada pela soprano Sonya Yoncheva (XXXV: 05.11.2019) e empresta melodia sua a “Solo con Te” (LXXIII: 20.05.2020), por Sarah Brightman; (iii) de George Harrison, presente quatro vezes com os Beatles e uma vez com The Traveling Wilburys; (iv) de Milton Nascimento, que canta “A Lua Girou” (LXXXIV: 25.07.2020) e é compositor, com Chico Buarque, de “Cio da Terra” (LV: 30.01.2020), na voz de Pena Branca e Xavantinho; e (v) de Simon & Garfunkel, que figuram em “The Sound of Silence” (XXIV: 21.09.2019), mas também na única edição especial – sem número – da série, publicada de última hora (por inspiração súbita) por ocasião do Dia do Amigo (20.07.2020), com a esplêndida “Bridge over Troubled Water”, composta por Paul Simon e presente anteriormente na voz de Elvis Presley (XII: 08.08.2019).
Até quis, mas não me dispus efetivamente a classificar as cem componentes da série em gêneros musicais, pois logo percebi que seria empreitada das mais complexas, em razão de não poucas músicas transitarem por diferentes gêneros ou qualificações. Muitas das músicas postadas (a grande maioria, confesso) são consideradas românticas, mas igualmente podem ser tidas como integrantes dos gêneros erudito, pop, rock, MPB, entre outros, ou de nenhum deles em específico. Há trilhas sonoras instrumentais, mas também canções que fizeram parte de trilhas de filmes, como “Into the West” (IX: 30.07.2019), de Annie Lennox, “Same Mistake” (XLII: 03.12.2019), de James Blunt, e “A Thousand Years” (LIII: 22.01.2020), de Christina Perri. E o que dizer, por exemplo, das canções napolitanas “Non Ti Scordar di Me” (XI: 05.08.2019), cantada por Pavarotti, e “Core ’Ngrato” (XLI: 29.11.2019), pelos Três Tenores? São eruditas ou populares? E intérpretes como Andrea Bocelli e Sarah Brigthman: cantores líricos ou pop? Em resumo: classificar uma música não raras vezes é quase tão difícil quanto definir o que seja música.
Por fim, embora isso não configure maior ou menor qualidade, nem mesmo, necessariamente, maior ou menor popularidade, quais foram as músicas mais curtidas? No ‘feed’ do Facebook (não contabilizei os ‘stories’), a campeã, disparado, foi a poético-filosófica (e linda) “Tocando em Frente” (XXV: 25.09.2019), cantada por Almir Sater, composta por ele e Renato Teixeira, com 37 curtidas. Depois vieram as já citadas “Ave Maria” de Gounod (22) e “The Sound of Silence” (21), seguidas por “I Don’t Want To Talk About It” (XXXVI: 09.11.2019), com Rod Stewart e Amy Belle (20). As demais não passaram de 15 curtidas, e notei que neste ano caiu o volume de ‘likes’, talvez em razão das mais fortes restrições do Facebook em relação a postagens de vídeos do YouTube – a mais curtida de 2020 até o momento foi “Jesus, Alegria dos Homens” (13), postada na Páscoa, à frente de “Canto della Terra” e “Can You Feel The Love Tonight” (XCI: 09.09.2020), de Elton John, ambas com 12 manifestações pontuais de apreço.
Feito este balanço, qualitativo e quantitativo, de “Músicas que tocam a minha alma”, resta-me em primeiro lugar convidar a todos a brindar a presente efeméride, assistindo ao vídeo da centésima edição da série, com o bloco “Serenata” do DVD “3x4”, de Oswaldo Montenegro, e deliciando-se, em pouco menos de meia hora, com um “pot-pourri” de catorze de seus maiores sucessos (acesso em https://bit.ly/3nLN93J). E quero também agradecer a todos que, de modo mais constante ou mesmo eventual, participaram desta caminhada, ouvindo as músicas, apreciando os vídeos, curtindo, comentando ou compartilhando as postagens – e também a você que porventura esteja tendo contato com esta série pela primeira vez.
Quero concluir retomando um tocante episódio por mim vivido no último 06 de julho, dois dias após o primeiro aniversário de “Músicas que tocam a minha alma”, data em que o gigantesco Ennio Morricone nos deixou, aos 91 anos, na Itália. Conforme contei aqui mesmo, no Face (vejam em https://bit.ly/33550ut), uma quase irresistível vontade de ouvir a trilha sonora do filme “A Missão” (VIII: 27.07.2019) me veio justamente por ocasião da partida desse gênio da música – vim a saber de sua morte apenas horas mais tarde. Minha alma foi tocada de modo profundo, indelével, inesquecível. E então escrevi, após brevemente relatar a tocante e transcendental experiência: “Poderia dizer que agora, como é nosso costume, Morricone está ainda mais perto de Deus, ou nos braços dele. Mas como dizer isso de quem talvez já estivesse mergulhado nele? Pois somente da mais sublime fonte é possível extrair os mais sublimes bálsamos, a água da mais pura e mais fulgurante beleza, o eterno elixir da vida.” É o que posso dizer sobre o que seja música, em sua mais alta expressão.
Feliz Dia do Músico! Parabéns a “Músicas que tocam a minha alma”! Celebremos a música, celebremos a vida! E rumo às duzentas!
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