Crônicas fora de hora – I: “Transgênico ou transgênero?”


Longe de mim querer brincar com dois temas tão importantes e delicados – e muito menos gerar polêmica logo na primeira daquelas que, espero, sejam uma série de crônicas que, mesmo vez ou outra tratando de assuntos espinhosos, tragam uma dose de leveza e saudável reflexão, entre outros efeitos mentais, intelectuais, emocionais ou sensoriais que possam ser positivos para quem vier a degustá-las (de preferência sem quaisquer consequências antidigestivas).

Em parte o título deste texto provém de pequena e compreensível confusão de aluno de um dos cursos que realizei, no qual apresentei uma proposta de redação a respeito de organismos transgênicos (ou geneticamente modificados), tema em alta na época, quando, por outro lado, apenas se começava a falar mais abertamente sobre o conceito de transgênero, hoje em dia assunto muito mais presente na mídia e redes sociais.
Mas o que quero mesmo é destacar o que há de transgênico e transgênero no que se chama crônica. Como assim? – é o que provavelmente você, cara leitora, caro leitor, deve estar se perguntando. Sim, é o que acabou de ler, até porque a crônica é um gênero. Isso mesmo, um gênero! Mais exatamente um gênero textual (e, de modo específico, gênero jornalístico e literário, visto que transita entre essas duas áreas). Mas a crônica igualmente atravessa características de diversos gêneros: o conto, o romance, o artigo, o ensaio, a reportagem, entre outros. É, portanto, uma espécie de texto transgênero. Além disso, na medida em que contém um pouco (ou muito) do DNA de seu autor, é uma criação transgênica.
Ainda ousamos acrescentar que a crônica, por poder abarcar os mais diferentes assuntos, inclusive num único texto, é transdisciplinar – do que decorre que seria possível falar, tal qual era comum no campo do marketing décadas atrás, dos “3Ts da crônica”: transgênero, transgênica e transdisciplinar.
Para quem está achando esta crônica inaugural um tanto estranha, talvez conceitual demais ou – já que falamos em “trans” pra lá, “trans” pra cá, e como se dizia nos anos 80 – transando um lance muito louco (deixo bem claro que aprendi essas expressões ao ver algumas reprises de telenovelas, pois era quase um bebê naquela época), esclareço que poderia ter sido pior.
Não faz muito tempo alguns amigos me apontaram que certos textos meus – normalmente artigos – andavam muito longos. A crônica, por sua vez, costuma ser um tipo de escrito mais curto. Cheguei a pensar em falar sobre isso, e já tinha até o título pronto: “Tamanho é documento?”. Foi melhor ter mudado o foco, a polêmica seria transbordante ou, quem sabe, transcendental...

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