Crônicas fora de hora – II: “O falso dilema da vacina”
Você é contra o fumo ou, mais especificamente, contra o cigarro? É bem possível que sim – e acredito que mesmo grande parte dos fumantes concordaria que o ideal seria não fumar. Mas, mesmo contra o fumo, você se posicionaria contra o direito de fumar? Talvez não, ou seja, por mais que lamente o fato de alguém (sobretudo um ente querido) fumar, ainda assim não necessariamente o proibiria – mesmo se pudesse – de praticar esse ato, por mais maléfico que seja.
Um raciocínio similar pode até ser aplicado a um tema ainda mais delicado: o aborto. É possível ao mesmo tempo ser contra o aborto e favorável à sua legalização, até porque, verdade seja dita, ele é feito a mancheias em clínicas clandestinas, muitas delas em péssimas condições sanitárias, com profissionais que nem sempre são dignos desse nome, resultando não raras vezes no fim não apenas do embrião ou feto, mas também daquela que renuncia a ser mãe. Legalizar, cabe acrescentar, sobretudo se associado a conscientizar, poderia até propiciar a queda do índice de procedimentos desse tipo.
Claro, são temas complexos demais para serem esmiuçados num singelo texto como este, os quais contêm outros envolvidos além daqueles a quem se concede um direito (num caso, os que absorvem passivamente as substâncias tóxicas do cigarro; no outro, o embrião ou feto possível alvo do aborto). Mas podemos usar semelhante lógica à presente celeuma em torno da vacina contra a covid-19. Há quem seja contra ela – e, por mais que se diga ser uma atitude absurda, anticientífica ou nada solidária, não deixa de ser um direito tomar essa posição, conforme a liberdade de pensamento. Mas pergunto: ser contra a vacina implica em que se tenha também o direito de se posicionar contra o direito dos outros de tomá-la?
Pois o fato é que tenho visto dezenas de manifestações contrárias não somente à aplicação em massa, como à própria produção de vacinas. Há quem alegue, por exemplo, que elas poderão alterar o DNA humano, o que viria a ocasionar outros males (como cânceres) mais adiante. A grande maioria dos cientistas tem refutado essa possibilidade, mas, ainda que haja alguma verdade nisso, valeria a pena deixar de se proteger contra um mal que tem se mostrado explosivo na atualidade, alterando profundamente a vida e a rotina de todo o planeta, por conta de algo que se encontra no campo do ‘poder vir a ser’?
Não podemos, obviamente, ser ingênuos em negar que existam interesses (geo)políticos e financeiro-econômicos na produção de vacinas, ou do que quer que seja, e da mesma forma que a ciência é por natureza mutável, sujeita a correções, imperfeita embora perfectível. Mas a guerra ideológica em torno na vacina me soa totalmente sem sentido, sobretudo por estarmos num momento de emergência, numa guerra ainda maior, contra um vírus “extremamente competente”, conforme declarou recentemente o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta.
As vacinas contra a covid-19 têm sido testadas com milhares de voluntários ao redor do mundo; provavelmente nem todas terão sucesso, algumas (dentre as menos comentadas, é verdade) já foram até descartadas – e aquelas com eficácia demonstrada passaram ou passarão pelo crivo de órgãos como o FDA e a Anvisa (que esperamos atuem com o máximo de rigor e cientificidade). Ainda assim, pode haver algum risco, mesmo que seja bem lá pra frente? Até pode. Mas qual o risco maior, aquele que convém ser mais evitado, e com mais urgência: esse risco hipotético ou o de contrair a doença que mais tem matado no mundo atualmente? E para os que se preocupam sobremaneira com a economia, não raro oponentes da vacinação: melhor deixar como está, com a atividade econômica capengando, ou brecar a pandemia, a fim de que a vida possa voltar a algum patamar de normalidade?
Ademais, tal como já decidiu o STF, ontem mesmo, a questão da obrigatoriedade não chegará ao ponto de se prender alguém, ou impedi-lo de sair de casa. No máximo resultará na aplicação de multas ou sanções que resultem na perda, por tempo indeterminado, de alguns direitos (de obter crédito ou manter benefícios sociais, conseguir emprego, fazer matrículas, participar de concursos públicos, entrar em locais predefinidos, entre outros), risco que por certo haverá quem esteja disposto a correr. Será quase como a ‘obrigatoriedade’ de votar, a qual não impediu, nas eleições do mês passado, a eclosão de índices de abstenções superiores a muitos vencedores do pleito.
Nem tudo o que é válido para o particular se aplica ao coletivo. Vacinar-se ou não pode ser uma decisão pessoal, um direito intransferível de cada um, mesmo sujeito a restrições. Posicionar-se contra o direito dos outros de se vacinarem, no entanto, me parece claramente alimentar um falso dilema e, mais do que isso, propagar uma postura perigosa e incentivar ações questionáveis e de altíssima responsabilidade.
Comentários
Postar um comentário