Teremos, afinal, uma Revolução de 2020?

No conto
“Verde-esmeralda” (de minha autoria, a ser publicado no ano que vem, pela série
Ecos de 2020), seu protagonista,
Paulo, viaja no tempo – mais precisamente pouco mais de doze anos rumo ao
futuro – e se depara com um livro que teria sido por ele mesmo escrito,
intitulado Revolução de 2020: o
renascimento após a tragédia, em cuja introdução se lê:
Os primeiros meses de 2020 foram sacudidos por um fato
inusitado, e sobretudo estrondoso; algo que não acontecia havia um século, mas
nunca ocorrera em um contexto de tamanha conexão entre os países e as pessoas.
A pandemia de covid-19, causada pelo vírus Sars-CoV-2, então chamado de novo
coronavírus, iniciada na China ao final do ano anterior, se espalhou de tal
modo que parou o mundo, instaurando quarentenas de confinamentos parciais ou
totais em centenas de países. E muito pior: matando milhões de pessoas ao redor
do globo, não poupando pobres nem ricos, mas selecionando suas vítimas de modo
desleal, traiçoeiro, como um vírus ‘pós-moderno’, fluido e fugaz para alguns,
pesado e contundente para outros, e quase sempre sem mostrar-se de imediato.
Hoje por alguns autores chamada de A Grande Pandemia – ou Primeira Grande
Pandemia, pois se prevê que novas poderão acontecer –, dividida em ondas às
vezes suaves, outras bravias, foi por outro lado a propiciadora de mudanças
profundas (e benéficas) de comportamento e pensamento, revolucionando os campos
da filosofia, das artes, da cultura, da espiritualidade, da psicologia, da
ciência, da política, da economia, da vida em sociedade e, acima de tudo, da
vida particular de cada ser pensante neste planeta. Instaurou-se, enfim, um
novo humanismo, um novo iluminismo, uma nova renascença, aliando o telúrico ao
cósmico como jamais se dera na história da humanidade, e inaugurando o que
podemos chamar de Revolução de 2020 – e não a revolução de um ano, mas de uma
década, quiçá o início de uma revolução ainda maior, a espraiar-se século
adentro, mesmo ao custo das milhões de vidas ceifadas, mártires de uma nova
era, e do sofrimento dos bilhões de corações que viram partir entes muitos
queridos, caso inclusive deste que vos dirige a palavra, e de modo
desafiadoramente pungente.
Trata-se, é verdade, de
uma obra de ficção, ainda que alicerçada em fatos reais. Escrita originalmente
em maio, por ocasião de um concurso literário, quando a pandemia não atingira
seu primeiro milhão de mortos (tudo caminha, infelizmente, para se chegar ao
segundo milhão em 2021), foi redigida sob o impacto das primeiras cenas
chocantes que se disseminavam pelas mais diferentes formas de noticiário, sem haver
até então qualquer esperança concreta de vacinas – o que hoje já se configura
realidade – ou de cura – algo ainda distante de modo pleno, mas que já atinge
maior concretude para casos que de início médicos e enfermeiros não sabiam
tratar com a devida desenvoltura.
Contudo, a situação
permanece grave, e de modo especial no Brasil, em que continuam quentes
discussões em torno do uso de máscaras, do distanciamento social e, mais
recentemente, da obrigatoriedade da vacinação, bem como da eficácia e segurança
dos imunizantes já testados ou em fase final de estudos. O que vemos como
resultado: aglomerações praticamente idênticas às dos anos anteriores em
diversos locais das grandes cidades e de balneários litorâneos, reforçadas pelo
presente período de festas (e compras) e férias.
Dialogando o conto com a
realidade, fica no ar a pergunta: teremos, afinal, uma Revolução de 2020?
O termo “revolução” é há
séculos alvo de muitas controvérsias. Há quem deseje revoluções, e quem as
abomine. Há revoluções bruscas, sangrentas, violentas, e outras que se fazem
marcantes porém suaves, alimentadas por anos de sutis transformações que se
erguem, num dado momento, em somatório de forças, para construir algo novo, por
vezes aparentemente inesperado, mas que vinha se amalgamando paulatinamente no
substrato daquilo que se mostra visível, palpável.
“Revolução” provém do
verbo “revolver”. Nesse aspecto, grande parte da humanidade tem passado por um
ano revolucionário. Quanto se revolveu em nosso íntimo, de modo benéfico ou
não, mas sempre em direção a uma transformação, ao longo de 2020! Fomos
mexidos, balançados, chacoalhados pelos fatos deste ano prestes a se concluir.
Tudo o que tivemos de fazer para nos adaptarmos aos novos padrões de
convivência sob pandemia; os impactos da nova doença, causando-nos preocupação,
angústia, tristeza, dor, sofrimento e, para não poucos habitantes do planeta,
luto; os acontecimentos envolvendo agressões a negros, mulheres, minorias; os
gravíssimos problemas no campo do meio ambiente, afetando profundamente fauna e
flora de biomas como o Pantanal e a Amazônia, entre outros no mundo; os abalos
políticos e econômicos, no Brasil e em outros países, que já não eram poucos e
fracos em 2019 e se tornaram ainda mais incômodos com as novidades do presente
ano; as guerras de informação e contrainformação, com a disseminação de fake
news e os ataques hacker. Quem de nós, enfim, não teve pensamentos, emoções e
sentimentos revolvidos em 2020?
Será que, no entanto,
tudo isso resultará em algo maior, mudando o mundo como um todo? É comum, quase
uma regra, no que quer que seja, que aquilo que afeta os entes menores – no
caso, cada um de nós, individualmente – acabe por afetar os entes maiores que
os reúnem – famílias, comunidades, países, a humanidade. Ainda assim, esse avanço
dependerá do que for feito com a revolução interna (enquanto revolvimento), se
não de todos, ao menos de um grupo considerável de indivíduos que seja
suficiente como motor de um processo maior. Revolução efetiva é aquela que
agrega revolvimento e transformação – e, se não houver uma transformação em
grande parte das pessoas, muito dificilmente haverá uma transformação mais
ampla.
Se tomarmos os diferentes
campos da atividade humana separadamente, veremos avanços candidatos a um
alcance revolucionário, por exemplo, na ciência: a corrida por vacinas eficazes
contra a covid-19, bem como por formas mais adequadas de tratamento aos
doentes, se deu em tempo recorde. No terreno da educação, nunca se pensou e se
fez tanto para que soluções online buscassem suprir ao máximo possível a
ausência de aulas presenciais – a tecnologia, aliás, foi grande aliada também
no campo da economia e do comércio, sendo um alívio para muitos empresários,
dos micro aos grandes, que viram no e-commerce um desafogo às lojas fechadas ou
com atividade reduzida. As artes e a cultura, por sua vez, também se viram
beneficiadas pelas lives promovidas à distância, compensando, ainda que muito
parcialmente, o fechamento forçado de casas de espetáculo, salas de concerto,
cinema ou teatro, museus e galerias.
As perguntas, porém, são
inúmeras. Uma delas: em que medida os avanços científicos na busca por vacinas
e medicamentos para a covid-19 se refletirão em benefícios no combate a outras
doenças, por vezes aparentemente esquecidas ao longo da pandemia? E mais: haverá
avanços no campo da saúde também no que tange a ter hospitais mais bem
preparados para eventuais epidemias ou pandemias futuras? Outras áreas da
ciência, incluindo a das humanidades e setores hoje primordiais, como o de
energias renováveis, igualmente apresentarão mais força? O que fazer para que
as aulas online, mesmo que permaneçam como complemento aos encontros
presenciais, sejam acessíveis para todos, incluindo os que hoje não dispõem de
conectividade via internet? Como suprir os prejuízos educacionais deste ano de
2020, em que milhões de crianças e adolescentes tiveram significativos atrasos
no aprendizado e, em não raros casos, se encontram à beira da evasão completa? Como
reerguer os empreendedores que sequer conseguiram resistir à crise, com ou sem
o uso de alternativas virtuais? De que maneira equilibrar eventos culturais in
loco com apresentações online, de modo a propiciar mais recursos financeiros e
reconhecimento aos artistas das diversas áreas? E podemos elencar outras tantas
questões que se resumem a uma pergunta maior: em que campos do fazer humano
haverá mudanças realmente revolucionárias?
Uma autêntica Revolução
de 2020 – remetendo não apenas ao ano ora prestes a terminar e que encerra a
segunda década do século 21, mas sobretudo aos anos que se estenderão até 2029
– não ocorrerá, entretanto, sem mudanças profundas nos terrenos da economia e
do social. Independentemente de como se deem as transformações identificadas
como revolucionárias, está mais do que claro: é preciso cuidar melhor do ser
humano; é preciso haver mais solidariedade; é preciso distribuir mais
equanimemente os recursos materiais; é preciso haver menos acúmulo nas mãos de
poucos; é preciso ser mais humano.
Não se trata de solapar o
capitalismo, ainda que se mostre sistema carregado de vergonhosas distorções.
Não se trata de instaurar à força qualquer sistema rigidamente igualitário, aos
moldes do comunismo que vigorou em diversos países no século 20. Não se trata
de fazer qualquer revolução armada ou de outras formas violenta. Não se trata
de derrotar grupos equivocadamente tidos como inimigos por pensarem diferente.
Muito ao contrário: é preciso haver diálogo, é preciso haver comunhão, em busca
de soluções eficientes e criativas que usem o capital como precioso instrumento
(mas não único) para avanços que levem a humanidade a um novo patamar, combatendo
a fome – que ainda mata mais do que qualquer doença, inclusive a covid-19 –,
doenças de fácil resolução que permanecem problemáticas em países paupérrimos
(ou muito pobres em setores-nicho, como o Brasil), bem como ignorâncias de
qualquer espécie. Que busquemos, quem sabe, um novo sistema – que poderemos
chamar de solidarismo, colaborativismo, distributivismo ou equanimismo,
pouco importa, mas que beneficie equilibradamente a todos os cidadãos, das mais
diversas camadas sociais, raças, etnias, gêneros e grupos dos mais variados
tipos. Enfim, um novo humanismo, não apenas enquanto ideal filosófico, mas de
caráter econômico-social, imerso na realidade palpável e com foco em interações
transdisciplinares, envolvendo e aproximando áreas hoje um tanto distantes,
como ciência, filosofia e espiritualidade.
Teremos, afinal, uma
Revolução de 2020? Não há uma resposta, mas existe uma certeza: é necessário
que ela ocorra, antes que o mundo se encontre em um caminho praticamente sem
volta, tal quais as visões distópicas tão em voga na ficção ao longo das
últimas décadas, na atualidade em escala crescente. Que ela se faça com a
serenidade dos mais sonoros silêncios, mas com a força das mais graciosas
tempestades, até porque talvez não nos reste muito tempo. Uma revolução que se
faça não apenas com corpos e mentes, mas igualmente com almas e corações; uma
revolução de pensamentos e sentimentos, de atitudes menores e maiores que
grassem do âmbito pessoal ao espectro coletivo, de ações contínuas, amplas e
profundas – eis a oportunidade que temos, para a cura maior da humanidade.
Mais informações sobre a
série Ecos de 2020 nas seguintes
páginas:
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